quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

.    
  capitulo 3 Um segundo encontro
    A farmácia não fica longe, mas não quero ficar cansada, quero fazer a trilha até as cachoeiras e não quero passar vergonha na frente dos guias. Isso seria motivo de piadas para o resto da vida. Chego à farmácia, e enquanto a farmacêutica vai pegar os remédios que eu pedi tiro meu telefone da bolsa para dar uma olhada rápida na internet. Afinal, faz dois dias que eu não olho e devem ter algumas mensagens de felicitações. Vejo as mensagens, mas não tenho tempo de responder agora, e quando estou prestes a guardar o celular e pegar o remédio. Meu Deus! Isso será o meu dia de sorte, ou diria de azar. É ele, o homem de ontem, fico nervosa; pago o remédio e saiu de cabeça baixa para fingir que não o vi.
Chego ao carro e dou um suspiro de alivio sem sequer entender porque eu estou fugindo dele. Ele nem sequer deve lembrar que me viu ontem, mas pra não correr o risco de me sentir boba novamente é melhor eu ir embora. Ligo o carro e vou rumo ao hotel, e ele ainda envolta em meus pensamentos. Porque eu saí de cabeça baixa? Porque eu não disse olá e tentei engrenar uma conversa? Porque eu saí feito uma fugitiva? Isa, Isa, você deve estar com problemas psiquiátricos, como pôde fingir que... O barulho interrompe meus pensamentos, uma moto, não acredito será que ele vai passar por mim? Será que é a moto dele? Mais porque eu estou pensando isso? Milhares de outras pessoas possuem moto sabia Adalgisa? – Sussurrei.
A dúvida chega ao fim, com certeza é a moto dele. É o capacete dele, posso ver pelo retrovisor, e está acelerando me ultrapassando. O quê? É impressão minha ou ele está ao meu lado pedindo pra eu encostar o carro? Será que eu estou delirando? Mas, o que ele quer comigo? Será que ele é um bandido? Não, acho que tive a impressão de que o recepcionista o conhecia! Sim e que garantia isso me dá? Será que ele quer perguntar por que eu fui tão boba ontem por não falar com ele? Ah! Não! Eu estou sendo idiota agora! Já estou ultrapassando todos os limites imaginando mil coisas. E não é delírio, ele continua apontando pedindo pra eu encostar o carro. É, agora que estou em uma rua mais movimentada eu paro o carro e baixo o vidro.
Ele encosta a moto ao meu lado, e nem preciso dizer que o capacete sai de sua cabeça com uma lentidão digna de suspense de hollywood, ou é minha imaginação.
- Desculpa te assustei? –Pergunta ele.
- Um pouco. - Respondo sem pensar.
- Desculpa! É que eu fui à farmácia e achei seu celular.
Como pode eu sai tão apressada com medo de ter que falar com ele que esqueci o celular e agora vou ter que falar de um jeito ou de outro.
- Obrigado. Saí um pouco apressada. - Falo como quem procura uma explicação.
-Olhe meu nome é Eduardo, mais pode me chamar de Dudu, e desculpe mais uma vez se assustei você.
Ele me entrega o celular e fica me olhando como quem espera uma resposta. Depois de alguns segundos me recupero e crio coragem para falar, na verdade quase gaguejando.
- Adalgisa, mais pode chamar de Isa.
Ele ri. E agora eu fico sem entender o que tornou o meu nome tão engraçado. E por alguns segundos, ou frações de segundo, não sei por que, desde a primeira vez que o vi tenho a sensação de que está tudo em câmera lenta, nos olhamos sem pronunciar palavra alguma.
- Estou desculpado? – Pergunta com um leve sorriso no canto da boca.
Ai que alivio, o silêncio foi quebrado! Estou apavorada, com medo de ficar com aquela cara de boba que eu fiquei ontem à noite. Junto forças, muitas forças e tento parecer descontraída. Afinal, eu sempre fui mesmo.
- Está. Se me disser o que achou tão engraçado. – Respondo.
- Desculpe, é que quando eu cheguei você estava rindo.
Ele está rindo de mim, ele notou que desde ontem eu estou sendo muito boba, e agora ele está rindo de mim. –Falo a mim mesma.
- Imaginei mil e uma coisas quando você fez gestos pra eu parar. Você podia ser um bandido, um maníaco. – Disse.
Agora é a minha vez de rir. Mas, do contrário ele ri muito mais! É uma risada tão linda, ele é lindo, e a risada, me parece uma risada tão sincera, daquelas que há muito tempo eu não dou.
- Maníaco.  - Repete ele, e ri ainda mais.
- Sei lá. Não está escrito na testa não é? – Disse eu, sorrindo.
Rimos um pouco e ele completa:
- Você tem razão. Mas, pensando assim você não deveria ter encostado.
- A rua não estava movimentada, por isso não parei antes. Estava esperando mais movimentação.
- Bem, eu estou hospedado no mesmo hotel que você, então, acho que vou acompanhando seu carro, caso algum maníaco resolva lhe abordar. – Brincou comigo.
Depois de alguns risos mais contidos, entro no carro e dou partida enquanto ele segue na moto. Chegamos ao hotel e ele ainda espera que eu saia do carro pra me acompanhar, e eu estou ficando um pouco menos ansiosa agora.






- Seu namorado está doente? - Perguntou ele.
- Namorado? Não minha amiga. – Respondo.
Namorado? Porque ele acha que eu tenho namorado? E porque está interessado? Meus próprios pensamentos me interrompem e me repreendem. Isa não delira.
- Então, seu namorado está bem? - Continua ele se fazendo de desentendido.
- Não tenho namorado, estou de viajem com duas amigas para comemorar meu aniversário. Respondo como se precisasse dar uma explicação e deixar bem claro para ele que não tenho namorado.
- Meus parabéns Adalgisa. – Prontamente
- Obrigado. E... Isa me chame de Isa.
Ohhhhh meu Deus; ele lembra meu nome, e está sempre engatando uma conversa e eu não consigo fazer outra coisa a não ser responder as perguntas dele como se eu tivesse sérios problemas mentais.
- Desculpa minha falta de educação, quantos anos vai fazer? – Ele pergunta.
- Na verdade já fiz. 25.
- E o que vocês planejaram pra viagem?
- Ainda não planejamos nada especifico. Talvez trilha, ver as cachoeiras, etc.
- Eu conheço bem a cidade, talvez possa acompanhar vocês. – O sugeriu.
E rapidamente ele completa:
- Uma mulher tão bonita, acompanhada só por mulheres... Pode ser perigoso! Se houver algum maníaco a solta? – Completou com ironia.
Nós rimos, e já que agora eu estou começando a ficar um pouco menos perturbada com a beleza dele eu continuo a conversa.
- E a sua namorada não vai ficar chateada de você servir de guia para um grupo de mulheres que você não conhece. – Pergunto.
- Eu não tenho namorada, e se tivesse eu teria que terminar com ela agora mesmo. – Falou com um sorriso no canto da boca.
O que foi isso, uma cantada? Uma loucura minha? Tão bonita? Eu? Ele me acha bonita, o maior gato de todos os tempos me acha bonita? E agora? O que eu respondo? Droga ficou nervosa de novo, vamos parar logo com isso! – Pensei consigo.
- Eu já vou indo, tenho que dar o remédio da minha amiga. Tchau.
Saída de emergência, alguém me diz onde é, a saída de emergência! Eu sei que já me despedi, já dei as costas, estou saindo, mas, ainda estou profundamente perturbada. Queria voltar e perguntar se aquilo foi uma cantada. Porque se foi, já funcionou! Ao mesmo tempo quero fugir, ele me intriga, me faz ter medo. Não sei, ele desperta em mim alguma coisa que eu não conheço, quero correr, mais isso seria ridículo, então sinto uma mão tocando meu pulso, em qualquer outra situação eu sentiria medo, até uma repulsa, onde já se viu um estranho segurar meu pulso. Mas, porque eu não sinto repulsa? Estou sentindo um calor subindo pela minha nuca, e talvez, até uma imensa satisfação por essa mão me deter. Tá tudo confuso. Eu me viro, olho em seus olhos e percebo que ele realmente é lindo, sem querer percebo que meus olhos vão diretos à sua boca, e sei muito bem o que Freud diria sobre isso.
- Você não me respondeu? - Pergunta ele.
Alguns segundos de silêncio e sei que preciso responder, se eu não responder vou ficar tentada mais uma vez a desviar os olhos praqueles lábios carnudos em forma de coração.
- O quê exatamente? – Pergunto fingindo-me de boba.
- Se me quer.
É impossível não entalar! Fico vermelha, tremendo; sei lá como é que eu fico, mas, se a Lêle ou a Bia estivessem aqui, isso seria motivo de piada até o final da viagem, quem sabe da vida inteira. Graças a Deus ele percebe o que disse e continua.
- Como guia. Se você quer que eu seja seu guia e de suas amigas.
- Acho que é melhor não. Talvez seja melhor procurar um profissional, essas trilhas podem ser muito perigosas. – Respondo.
- E se eu disser que eu sou o guia? – Diz convencidamente.
- E se eu pedir pra ver seu crachá?  - Respondo sorrindo.
Ele ri e continua:
- Veja bem, eu estou viajando sozinho, e me ofereci por que também estou precisando de companhia, se você não quiser minha presença tudo bem, mas se puder me fazer este favor podemos chamar um guia e sair eu você e suas amigas. – Fala com clareza.
Sinto todos os meus devaneios, agora, escorrerem pelo ralo! Eu aqui toda nervosa e me achando, pensando que este Deus grego, talvez, estivesse interessado por mim e na verdade ele só quer companhia. Ainda bem que eu não estou contabilizando quantas vezes eu tenho feito ele de bobo, desde ontem à noite quando o conheci.
- Desculpe. Desculpe minha falta de educação. E, pode sim! pode nos acompanhar.
- Que bom, vou falar com o Josué. Podemos nos encontrar daqui à uma hora no lago?
- Quem é Josué? – Pergunto preocupada.
- O guia contratado pelo hotel.
- Humm. Então Tchau.

- Até daqui a pouco. – Respondo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário